Artigo: Quanto vale o futuro?

Quanto valem as coisas que você comprará no futuro se você pagar por elas hoje?

Por: Carlos Heitor Campani, PhD em Finanças, Professor do Coppead/UFRJ, Pesquisador da Cátedra Brasilprev em Previdência e Pesquisador da ENS – Escola de Negócios e Seguros, além de Consultor de Empresas e Gestoras de Investimentos.

Olá, pessoal. Em um artigo que publiquei aqui na coluna coincidentemente há exatos dois anos, escrevi sobre o paradigma cultural que se enraizou em nossa sociedade: o “querer, ter e financiar”. Em outras palavras, é muito comum comprarmos um bem qualquer e depois pagar com “prestações suaves”, seja este bem uma bicicleta, um tênis mais bacana, um carro ou a casa própria.

Alternativamente, alguns optam por compras à vista, o que em muitos casos é o mais adequado por conta dos juros pagos em compras parceladas – não acredite em “parcelas sem juros”, seria algo como “subir para baixo” ou “descer para cima”. Mas por que não avaliamos também a ideia de comprarmos hoje o que iremos precisar ou gostaremos de ter no futuro? Esse jeito de organizar as finanças pessoais se baseia no paradigma que chamo de “querer, investir e ter”.

Em alguns anos, precisaremos comprar um tênis, certo? Em algum momento no futuro, gostaremos de comprar um carro? E aquela viagem dos sonhos, não podemos nos planejar hoje? A grande pergunta é: por que então não nos organizamos financeiramente para isso? Ao se organizar, tudo fica mais barato e com isso nosso dinheiro, que é escasso, consegue comprar muito mais coisas. Com base nisso, veio a ideia de compartilhar com você “quanto vale o futuro”.

A ideia é simples. Faço um exercício que se baseia nos seguintes passos:

  • Começo com uma determinada quantia disponível para investimento hoje.
  • Invisto esse montante em títulos do Governo Federal que pagam a inflação (medida pelo IPCA) mais uma taxa prefixada de juro real – note que estou sendo conservador ao investir em títulos considerados de baixíssimo risco, mas que permitem previsibilidade ao definir a rentabilidade no ato do investimento.
  • Para cálculo da taxa prefixada de juro real, utilizo dados do site da Anbima (obtidos na última terça-feira, dia 6). É importante ressaltar que a taxa de juro disponível no mercado depende do prazo de investimento. Não podemos utilizar a atual taxa Selic por esta ser válida apenas para o curtíssimo prazo.
  • Com isso, calculo o montante que terei em algum momento no futuro, tendo por base a taxa prefixada de juro real no mercado mais a inflação estimada pelo Boletim Focus (do Banco Central do Brasil) e desconto o imposto de renda a ser pago.
  • A partir do montante líquido de IR calculado no passo anterior, desconto a inflação a fim de trazer a quantia monetária para a mesma moeda de hoje (ou seja, sem efeitos inflacionários).

Com a premissa que o preço do bem desejado caminhará em linha com a inflação, consegui produzir a tabela abaixo. Analise-a com a devida atenção.

QUANTO DEVO INVESTIR HOJE PARA COMPRAR ALGO NO FUTURO?

Tempo para guardar1 ano3 anos5 anos10 anos30 anos50 anos
Valor do bem
R$ 300R$ 283R$ 260R$ 239R$ 185R$ 59R$ 18
R$ 1.000R$ 943R$ 867R$ 796R$ 617R$ 197R$ 60
R$ 50.000R$ 47.130R$ 43.363R$ 39.793R$ 30.868R$ 9.849R$ 2.991
R$ 500.000R$ 471.296R$ 433.634R$ 397.926R$ 308.678R$ 98.490R$ 29.909

A tabela acima deve ser interpretada da seguinte maneira: para eu conseguir comprar algo que custe hoje R$ 300 daqui a um ano, precisarei separar um investimento de R$ 283. Da mesma forma, para comprar, por exemplo, um carro que custe hoje R$ 50 mil daqui a 5 anos, precisarei separar o montante de R$ 39.793 e aguardar os cinco anos de investimento.

Uma coisa interessante a se fazer é interpretar os valores apresentados na tabela anterior como um desconto que o investimento proporciona. E note que não há nada de errado ao se fazer isso, já que, de fato, o que a paciência e a organização financeira propiciam é totalmente equivalente a um desconto no preço das coisas que compraremos lá na frente. Pensar assim facilita o entendimento do quanto vale a pena se organizar e investir no futuro. Em outras palavras, do quanto vale a pena enraizar a cultura do “querer, investir e ter” em nossa sociedade. Veja abaixo a tabela que produzi calculando o desconto equivalente aos valores mais baratos pagos hoje por compras no futuro.

DESCONTO PROPORCIONADO PELA CULTURA DO “QUERER, INVESTIR E TER”

Tempo para guardar1 ano3 anos5 anos10 anos30 anos50 anos
Valor do bem
R$ 3006%13%20%38%80%94%
R$ 1.0006%13%20%38%80%94%
R$ 50.0006%13%20%38%80%94%
R$ 500.0006%13%20%38%80%94%

A primeira coisa a se perceber é que o desconto não depende do montante investido, mas apenas do prazo de investimento: legal, né? Isso é uma consequência da boa e velha matemática financeira. Note que o desconto obtido com a cultura do “querer, investir e ter” é tanto maior quanto o prazo de investimento. Em outras palavras, a organização financeira aliada à maior paciência oferece descontos cada vez maiores.

Mas o ponto talvez mais importante é que esse desconto não aumenta proporcionalmente, mas exponencialmente. Isso significa dizer que a maior paciência não apenas é remunerada, mas também é premiada em prazos maiores. Note que se você se organizar para comprar um carrão de R$ 120 mil reais em 30 anos, ao investir hoje, você obteria um desconto de 80%, bastando, portanto, investir apenas R$ 24 mil, ou seja, 20% do valor do carro.

A contrapartida, claro, é a organização financeira para separar os R$ 24 mil hoje e a paciência para aguardar o investimento por 30 anos. Agora, se você almeja deixar um bom pé de meia para o seu filho, juntando o equivalente hoje a R$ 500 mil para ele daqui a 50 anos, o montante que você precisa investir seria apenas 6% disso (o que equivale a um desconto de 94%!), mais precisamente, “apenas” R$ 29.909 (veja a primeira tabela).

Legal, não é verdade? Vale MUITO a pena se organizar financeiramente e investir no seu futuro, concorda? Vamos, então, começar hoje a construir um futuro mais tranquilo e, principalmente, com inteligência ao fazer o nosso dinheiro comprar muito mais com a cultura do “querer, investir e ter”. Afinal de contas, organização e paciência premiam!

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