A escalada dos conflitos no Oriente Médio já produz efeitos na economia brasileira. O preço do diesel registrou alta acima de 20% em cerca de três semanas, desde o início dos ataques de Israel e Estados Unidos contra o Irã.
Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), compilados e divulgados pelo CNN Money, apontam que o valor médio do combustível saltou de R$ 6,03 para R$ 7,26, o maior patamar desde 2022.
Combinado à dependência brasileira de importações, que representam até 30% do consumo interno, o cenário de tensão geopolítica acende outro sinal de alerta: o impacto sobre o frete rodoviário tende a ser direto, imediato e severo. A avaliação é da Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC&Logística), divulgada pelo Valor Econômico.
Reflexos no seguro
Os reflexos vão além das bombas de combustível. O aumento dos custos logísticos pressiona o mercado de seguros e resseguros, especialmente no segmento de Transportes.
Para discutir esses desdobramentos, a Escola de Negócios e Seguros (ENS) promoveu a live especial “Crise no Oriente Médio: impactos em Riscos, Transportes, Energia e Resseguros”, transmitida ao vivo no dia 23 de março.

Mediado pelo gerente de Produtos da ENS, Ronny Martins, o encontro reuniu dois professores da Escola especialistas no assunto: Alfredo Chaia, diretor executivo da Risks Veritas, e Paulo Cremoneze, advogado especializado em Direito Marítimo e Securitário.
Risco geopolítico e sistêmico
Durante o debate, Chaia destacou que o bloqueio de rotas marítimas vitais, como o Estreito de Ormuz, responsável por cerca de 20% do escoamento global de petróleo, gera um efeito em cadeia com impactos diretos no Brasil, especialmente para o agronegócio. “O risco geopolítico de guerra se desdobra naquilo que chamamos de risco sistêmico”, analisou.
Ele ressaltou que o redirecionamento de frotas e o acúmulo de cargas em portos já afetam cadeias relevantes para o País, como a importação de fertilizantes e a exportação de proteínas.
“Milhares de contêineres frigoríficos retidos representam uma agregação de risco relevante, não apenas pelo valor envolvido, mas pela incerteza quanto à manutenção de energia para conservação dessas cargas perecíveis”, explicou.
Impacto nas apólices

A necessidade de desviar rotas para evitar áreas de conflito também impacta diretamente o desenho das apólices. Com trajetos mais longos e maior exposição ao risco, o mercado internacional de seguros tem revisado suas condições de cobertura.
Paulo Cremoneze detalhou os reflexos jurídicos e contratuais, lembrando que situações de guerra costumam estar associadas a cláusulas de exclusão por força maior, o que exige atenção redobrada de embarcadores e segurados.
“A cobertura de guerra não é automática no Seguro de Transportes, ela depende de contratação adicional. Diante do agravamento do cenário, o mercado internacional passou a revisar essas coberturas e exigir nova precificação”, explicou.
Segundo Cremoneze, os prêmios podem registrar aumentos expressivos, variando entre 50% e 200%. O advogado também abordou o conceito de “avaria grossa”, mecanismo jurídico do transporte marítimo que prevê o compartilhamento de prejuízos quando há sacrifício deliberado de carga para salvar a embarcação. “É uma situação clássica em cenários de conflito. E, nesses casos, defendo que a jurisdição brasileira deve ser sempre preservada quando houver interesse de partes nacionais envolvidas”, afirmou.
Assista à live completa aqui mesmo pelo Acontece.

