
O que acontece quando uma grande catástrofe atinge uma região e os prejuízos superam a capacidade de recuperação de pessoas, empresas e do poder público? Como o setor de seguros pode contribuir para que o País esteja preparado antes que esses eventos aconteçam?
Essas foram as questões centrais da segunda edição do ano do “Conversas do Fórum Mário Petrelli”, realizada na última quarta-feira, 19 de agosto, na Unidade São Paulo da Escola de Negócios e Seguros (ENS).
Promovido pelo Fórum Mário Petrelli de Fomento do Mercado de Seguros, o encontro reuniu especialistas e lideranças do setor para discutir os impactos dos eventos climáticos extremos e os caminhos para ampliar a prevenção e a capacidade de financiamento de grandes desastres.





Gap de coberturas
A tragédia climática que atingiu o Rio Grande do Sul, em 2024, foi o principal exemplo citado para dimensionar o desafio. Dados apresentados pelo diretor-presidente do Fórum, Marco Antônio Gonçalves, mostram que as enchentes provocaram mais de R$ 89 bilhões em prejuízos, e apenas cerca de R$ 6 bilhões foram pagos como indenizações pelo setor de seguros.
A diferença entre os valores evidencia o chamado gap de proteção, que corresponde às perdas provocadas por grandes eventos climáticos que não encontram cobertura securitária. O cenário foi destacado pelo CEO da MDS Brasil, Ariel Couto, que revelou números alarmantes. Segundo o executivo, 93% das perdas provocadas por eventos catastróficos no Brasil não estão cobertas por seguros.


Nesse sentido, o consenso entre os especialistas é de que há uma necessidade de aproximar o mercado da sociedade e ampliar o diálogo sobre proteção.
Quem financia a proteção?
Outro ponto abordado no evento foi a criação de estruturas capazes de distribuir os impactos financeiros dos grandes eventos.
Dario Luna, líder de Soluções Estratégicas de Resseguro da Lockton Re para a América Latina e o Caribe, apresentou experiências adotadas no México para o financiamento de desastres. Dentre as alternativas estão a combinação de recursos públicos, seguros, resseguros, fundos, linhas de crédito contingentes e instrumentos do mercado de capitais, como os Cat Bonds.

Na mesma direção, o Country Head da Lockton Re, Rodrigo Botti, apresentou proposta para compartilhamento de riscos entre governo, seguradoras, resseguradoras, corretores e mercado de capitais.
O modelo considera diferentes camadas de proteção para eventos como enchentes, alagamentos e deslizamentos. A ideia é que o setor privado possa construir uma proposta conjunta e levá-la ao poder público, ampliando a capacidade de resposta do País.
Prevenção antes do seguro
Se financiar coberturas para desastres climáticos é desafiador, reduzir os impactos desses eventos é fundamental.
O presidente da Academia Paulista de Letras, advogado e jornalista especializado em seguros, Antonio Penteado, defendeu que a transferência de riscos deve acontecer somente depois de medidas capazes de eliminar ou reduzir a exposição.
A lógica é direta: quanto menor o risco, menor a necessidade de transferência e, consequentemente, o custo da proteção.
Ao apresentar conclusões do Insurance Development Forum (IDF), o diretor-secretário e membro do Conselho de Administração da Enova Holding S.A., Paulo Eduardo Botti, reforçou que a redução dos riscos será determinante para o futuro do seguro contra catástrofes.
Segundo Botti, o seguro precisa fazer parte de uma estrutura mais ampla, que envolva governo, reguladores, instituições financeiras, setor de seguros e sociedade.
Informação também é proteção
A Escola de Negócios e Seguros (ENS) foi representada no evento pelo vice-presidente Robert Bittar, membro fundador do Fórum. O executivo chamou atenção para outro aspecto fundamental no debate sobre riscos catastróficos: a importância de compreender corretamente a natureza dos eventos e os danos por eles provocados.
Ao lembrar um episódio ocorrido em Esteio (RS), Bittar explicou como fenômenos distintos, como alagamentos, inundações, enchentes e outros eventos relacionados à água, muitas vezes são tratados como se fossem equivalentes, embora possam ter características e consequências diferentes.
Quando falamos em inundação, alagamento, enchente e outros eventos dessa natureza, muitas vezes tratamos tudo como se fosse a mesma coisa, e não é. Precisamos compreender melhor a origem dos danos”, disse.

Nesse contexto, o tornado registrado na região foi citado por Bittar para ilustrar a importância de distinguir a ocorrência de um fenômeno de seus efeitos diretos e indiretos. No caso mencionado, explicou o executivo, os danos em questão não decorreram diretamente da ação do tornado, mas das fortes chuvas e dos transbordamentos ocorridos posteriormente.
“Tornado é um risco previsto, contemplado nas coberturas de vendaval e granizo. No caso ocorrido no município de Esteio, os danos em questão não decorreram diretamente da ação do tornado. O fenômeno se formou no mar e provocou fortes chuvas na região, ocasionando o transbordamento de rios e córregos e, por consequência, enchentes e alagamentos. É importante compreendermos essa diferença e a origem dos danos, porque esse é um ponto que precisamos cuidar daqui para frente”, explicou.

Novos riscos, novas soluções
Os debatedores abordaram ainda as transformações regulatórias que influenciam a capacidade de estruturação de soluções para grandes riscos.
Camila Calais, sócia do escritório Mattos Filho, destacou os efeitos das mudanças recentes na regulamentação dos seguros de danos e a necessidade de acompanhar como essas alterações poderão impactar contratos e operações relacionadas aos riscos catastróficos.
Já o conselheiro do Fórum Mário Petrelli e presidente do Instituto de Longevidade MAG Seguros, Nilton Molina, ampliou a discussão sobre proteção para os desafios decorrentes do envelhecimento da população e das transformações demográficas brasileiras.



Com informações do portal CQCS.

